Thursday, December 17, 2009
Friday, November 13, 2009
Este é a única viagem que
Nos é concedida.
Dou-te a mão,
Desçamos nas linhas
Suavemente,
Sem tropeçar.
Vês este regato,
Como é belo?
E estas folhas?.
Fetos, rendilhados… húmidos
Neste chão com cheiro a húmus
Queres uma romã?
Adoro os seus olhos doces.
Sinto o cheiro a praia molhada.
É a chuva que vem lá.
Abraço-te.
Está na hora de partir.
Tuesday, October 13, 2009
Saturday, October 10, 2009
.
Acabo-me ...
Tentando adivinhar o sentido do que me move,
Rumo a trágicos e iminentes desfechos.
Porque tento com arrojo o abismo,
Cortejando a sua falésia
Que me entorpece?
Vontade suicida
de cerrar os olhos
e saltar?
Não sei se,
Inacabada,
Tenho pressa de acabar.
Se acabando,
Acabada,
Recomece…
Friday, May 22, 2009
Thursday, May 21, 2009
Before you (I) go ... II
Living liquid in my veins,
Rising fervently into the brain.
A mystic power crawling through me
Leaving me stray, searching for thee
Wednesday, May 20, 2009
Before you(I) go...
Can you hear the wind blow by Jordan Rusev Let me tell you this one last thing
Because I linger in this string
Bouncing back and forth
From seeming stillness to inner roar.
Let me tell you this one last say
Before I let you go your way
And even though you’ll never know
The words will fall into this world.
I do endlessly think of you.
In a mad and insane stage
I see you like a madman would
In every street, in every wood,
In every face, in every place…
And Zephyrus is thy name
When he blows me back your hands
Flying smoothly across the lands
In an ethereal sweet embrace,
Touching my eyes wide shut face ...
Wednesday, April 22, 2009
Monday, November 17, 2008
se ainda és o meu fogo
se acendes ainda
o minuto de cinzas
e despertas
a ave magoada
que se queda
na árvore do meu sangue
Pergunta-me
se o vento não traz nada
se o vento tudo arrasta
se na quietude do lago
repousaram a fúria
e o tropel de mil cavalos
Pergunta-me
se te voltei a encontrar
de todas as vezes que me detive
junto das pontes enovoadas
e se eras tu
quem eu via
na infinita dispersão do meu ser
se eras tu
que reunias pedaços do meu poema
reconstruindo
a folha rasgada
na minha mão descrente
Qualquer coisa
pergunta-me qualquer coisa
uma tolice
um mistério indecifrável
simplesmente
para que eu saiba
que queres ainda saber
para que mesmo sem te responder
saibas o que te quero dizer
Mia Couto
Wednesday, October 22, 2008
Não me importo com as rimas
By Rita Silva Não me importo com as rimas. Raras vezes
Há duas árvores iguais, uma ao lado da outra.
Penso e escrevo como as flores têm cor
Mas com menos perfeição no meu modo de exprimir-me
Porque me falta a simplicidade divina
De ser todo só o meu exterior
Olho e comovo-me,
Comovo-me como a água corre quando o chão é inclinado,
E a minha poesia é natural como o levantar-se vento...
Thursday, October 09, 2008
Veneno
Poetry by Sir Lawrence Alma-Tadema a poesia envenenou-me
já não há mais tempo
e as cebolas no escuro despertarão
o olho do coração
da cadeira
de balanço
a Paciência contempla a penugem dourada das horas
enquanto um gato dorme
sobre sua cabeça
arremessará suas flechas
sobre o Estreito de Magalhães
passará um milênio
Ruy Proença
Friday, September 19, 2008
Friday, August 22, 2008
Wednesday, August 20, 2008
Thursday, June 12, 2008
Pierrot by Angela VicedominiDize: Queres-me bem?
PIERROT:
Fala: gostas de mim?
COLOMBINA, hesitante:
Eu amo-te , Pierrot...... Desejo-te, Arlequim...
ARLEQUIM, soturnamente:
A vida é singular! Bem ridícula, em suma... Uma só, ama dois... e dois amam só uma!..
COLOMBINA , sorrindo e tomando ambos pela mão:
Não! Não me compreendeis... Ouvi, atentos, pois meu amor se compõe do amor dos dois... Hesitante, entre vós, o coração balança:
A Arlequim:
O teu beijo é tão quente...
A Pierrot:
O teu sonho é tão manso...
Pudesse eu repartir-me e encontrar a minha calma dando a Arlequim meu corpo e a
Pierrot a minh’alma! Quando tenho Arlequim, quero Pierrot tristonho, pois um dá-me o
prazer, o outro dá-me o sonho! Nessa duplicidade o amor todo se encerra: um me fala do
céu... outro fala da terra! Eu amo, porque amar é variar, e em verdade toda a razão do
amor está na variedade... Penso que morreria o desejo da gente, se Arlequim e Pierrot
fossem um ser somente, porque a história do amor pode escrever-se assim:
Um sonho de Pierrot...
E um beijo de Arlequim!
Menotti Del Picchia
Wednesday, June 11, 2008
sem motivo, me diz que não sabe o que é o amor.
eu sei exactamente o que é o amor. o amor é saber
que existe uma parte de nós que deixou de nos pertencer.
o amor é saber que vamos perdoar tudo a essa parte
de nós que não é nossa. o amor é sermos fracos.
o amor é ter medo e querer morrer.
A Criança Em Ruínas, de José Luís Peixoto
Tuesday, June 03, 2008
Sonhei contigo
Tuesday, May 20, 2008

In Requiem Figura II by Siro Anton
Monday, May 19, 2008
Friday, May 16, 2008
Artist Block by Ilja HackmanTudo me estranha
Escrevo e apago,
Grafo e anulo
Componho e elimino
Volto a escrever …
e a apagar …
Apago, já com força
Irritada
Azeda
Exasperada
Tudo me sabe a pouco
Nada me sabe a tudo
Quero mais,
Outra,
Diferente …
Não gosto, não é isto!
Não encontro em mim
A palavra
Que descreva o que em mim existe.
Imponho: Persiste!
Insiste …
Escrevo outra vez
Releio …
Replico!
Verifico que é vão apagar
Quando nada se disse.
E assim
Tuesday, May 13, 2008
Vontade de dormir
a soerguer-me na poeira —
Cada um para seu fim,
Cada um para seu norte...
— Ai que saudade da morte...
Quero dormir... ancorar...
Arranquem-me esta grandeza!
— P’ra que me sonha a beleza
Se a não posso transmigrar?...
Mário de Sá-Carneiro
Monday, May 12, 2008
IV

Encanta-te.
Esquece-te.
Tem por volúpia a dispersão.
Não queiras ser tu.
Quere ser a alma infinita de tudo.
Troca o teu curto sonho humano
Pelo sonho imortal.
O único.
Vence a miséria de ter medo.
Troca-te pelo Desconhecido.
Não vês, então, que ele é maior?
Não vês que ele não tem fim?
Não vês que ele és tu mesmo?
Tu que andas esquecido de ti?
Cecília de Meireles, in Cânticos
Thursday, April 24, 2008
Wednesday, April 23, 2008
Monday, February 25, 2008
Wednesday, November 15, 2006
Enquanto a chuva cai

A chuva cai. O ar fica mole . . .
Indistinto . . . ambarino . . . gris . . .
E no monótono matiz
Da névoa enovelada bole
A folhagem como o bailar.
Torvelinhai, torrentes do ar!
Cantai, ó bátega chorosa,
As velhas árias funerais.
Minh'alma sofre e sonha e goza
À cantilena dos beirais.
Meu coração está sedento
De tão ardido pelo pranto.
Dai um brando acompanhamento
À canção do meu desencanto.
Volúpia dos abandonados . . .
Dos sós . . . — ouvir a água escorrer,
Lavando o tédio dos telhados
Que se sentem envelhecer . . .
Ó caro ruído embalador,
Terno como a canção das amas!
Canta as baladas que mais amas,
Para embalar a minha dor!
A chuva cai. A chuva aumenta.
Cai, benfazeja, a bom cair!
Contenta as árvores! Contenta
As sementes que vão abrir!
Eu te bendigo, água que inundas!
Ó água amiga das raízes,
Que na mudez das terras fundas
Às vezes são tão infelizes!
E eu te amo! Quer quando fustigas
Ao sopro mau dos vendavais
As grandes árvores antigas,
Quer quando mansamente cais.
É que na tua voz selvagem,
Voz de cortante, álgida mágoa,
Aprendi na cidade a ouvir
Como um eco que vem na aragem
A estrugir, rugir e mugir,
O lamento das quedas-d'água!
Photo: The Weather Maker by Alexey Biryukov
Monday, November 13, 2006
Lua Adversa

Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.
Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.
E toda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...
Cecília Meireles
Photo: *** by Martin Zurmuehle
Monday, August 28, 2006
Uma voz na pedra
Sou uma voz que nasceu na penumbra do vazio.
Estou um pouco ébria e estou crescendo numa pedra.
Não tenho a sabedoria do mel ou a do vinho.
De súbito, ergo-me como uma torre de sombra fulgurante.
A minha tristeza é a da sede e a da chama.
Com esta pequena centelha quero incendiar o silêncio.
O que eu amo não sei. Amo. Amo em total abandono.
Sinto a minha boca dentro das árvores e de uma oculta nascente.
Indecisa e ardente, algo ainda não é flor em mim.
Não estou perdida, estou entre o vento e o olvido.
Quero conhecer a minha nudez e ser o azul da presença.
Não sou a destruição cega nem a esperança impossível.
Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra.
António Ramos Rosa
Wednesday, August 02, 2006
Pérola Solta
No frio e na aridez da minha face.
Rolou devagarinho...,
Até à minha boca abriu caminho.
Sede! o que eu tenho é sede!
Recolhi-a nos lábios e bebi-a.
Como numa parede
Rejuvenesce a flor que a manhã orvalhou,
Na boca me cantou,
Breve como essa lágrima,
Esta breve elegia.*
Lost Tear by The Black Knight - Zeca*José Régio, Filho do Homem
Tuesday, August 01, 2006
Fiodor Dostoievski
Monday, July 31, 2006
Epitáfio para um poeta
Com seu ar grave, mas, enfim, feliz;
A gravata e o calçado também não.
Ponham-no fora e dispam-lhe a farpela!
Descalcem-lhe os sapatos de verniz!
Não vêem que ele, nu, faz mais figura,
Como uma pedra, ou uma estrela?
Pois atirem-no assim à terra dura,
Ser-lhe-á conforto:
Deixem-no respirar ao menos morto!
José Régio, Filho do Homem
Onde Dormem Os Anjos by Luís Lobo HenriquesThursday, July 27, 2006
Tuesday, July 25, 2006
A(mar)
Amar amarga
E na palavra está contido
Amar é amarelo
Um fogo vivo e belo
Amar é a maravilha
O mar no feminino …
Friday, July 21, 2006
O Vagabundo do Mar
Sou barco de vela e remo
sou vagabundo do mar.
Não tenho escala marcada
nem hora para chegar:
é tudo conforme o vento,
tudo conforme a maré...
Muitas vezes acontece
largar o rumo tomado
da praia para onde ia...
Foi o vento que virou?
foi o mar que enraiveceu
e não há porto de abrigo?
ou foi a minha vontade
de vagabundo do mar?
Sei lá.
Fosse o que fosse
não tenho rota marcada
ando ao sabor da maré.
É, por isso, meus amigos,
que a tempestade da Vida
me apanhou no alto mar.
E agora,
queira ou não queira,
cara alegre e braço forte:
estou no meu posto a lutar!
Se for ao fundo acabou-se.
Estas coisas acontecem
aos vagabundos do mar.
Manuel da Fonseca
Wednesday, July 19, 2006
É ele! O sonhador!
Adora; ouve dentro de si mesmo uma lira.
E ao vê-lo chegar, as flores, todas as flores,
As que dos rubis empalidecem as cores,
As que dos pavões deixam as caudas ofuscadas,
As florezinhas azuis, as florezinhas douradas
Tomam para o acolher, nos seus ramos agitados,
Arzinhos humildes, ou grandes ares afectados,
E, familiarmente, porque fica bem às belas:
«Olha! É o nosso amado que passa!», dizem elas.
E, cheias de luz e de sombra, com vozes inquietas,
As árvores gigantescas que vivem nas florestas,
Todas essas velhinhas, as tílias, os áceres, os teixos,
Os carvalhos venerandos, os enrugados freixos.
O olmo de negra ramagem, que o musgo entorpece,
Como os ulemas fazem quando o mufti aparece,
Saúdam-no com grandes vénias, curvando para a terra
As cabeças de folhagem e as suas barbas de hera,
E vendo na sua fronte um sereno esplendor,
Murmuram muito baixinho: É ele! O sonhador!
Victor Hugo
(traduzido por Maria Manuela Parreira da Silva)
Tuesday, July 18, 2006
Ainda Bouguereau ...
Le ravissement de Psyche By William Bouguereau 1825- 1905Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob as montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas
Não posso adiar este braço
que é uma arma de dois gumes amor e ódio
Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação
Não posso adiar o coração.
Thursday, July 13, 2006
Tuesday, July 11, 2006
Reversus
Todos temos um verso, uma canção
Gravado, cinzelado no coração.
Verso que arranha, de aresta viva
Que fere a entranha e prolonga a ferida.
Verso que rasga na imensidão.
Que corta aguçado na escuridão
Do túmulo fechado, onde jaz com vida
E assombra, agoniza como alma perdida.
Seu fado afiado é a catacumba,
Onde cativo clama, talhado em penumbra
Por não lhe esperar melhor sorte:
Se acaso irromper da lúgubre tumba
Fará com que a vida sucumba
Ao trespassar o ser... até à morte.
Wednesday, July 05, 2006
Poemas Tristes
Às vezes poemas querem dizer tanta coisa
Outras não dizem nada
Querem transformar letras mortas
Em vida animada
Decompor frases tortas
Em palavra certa ou errada
Poesias são restos de sentimento
Cacos de liberdade ou coisa parecida
Fragmentos de dor e pensamento
Centelhas de emoção que querem ganhar vida.
Poetas são eternos sofredores
Podem ser mentirosos ou fingidores
Uns falam de alegrias outros de amores
Alguns tentam transformar o que está invisível
Em algo que tenha cores
E podem trazer a tona às lágrimas represadas
Do que se julga um insensível
Poemas podem falar de tudo
Ensinar a um cego o que é vazio
Põe palavras na boca de um mudo
Sopra frases aos ouvidos de um surdo
Mas eu gosto de escrever poemas tristes
Cada verso é uma batida do meu coração
As palavras são como reflexos do meu olhar
São lugares onde me perco para poder achar
A dor de viver aflora nas frases desse poema emoção
Se alguém algum dia quiser saber por onde andei
Ou quem eu fui
Que leia os meus versos
Porque foi neles onde fui mais feliz onde mais amei
Nos meus versos sou mais do que poderia ser
Quero aqui para sempre poder viver.
Ser poeta é transformar a própria vida em poesia
Os dias são os versos
As horas são as frases
As palavras são o agora
Ser poeta é viver amando o que não pode ser amado
É sentir saudade de algo que ainda não aconteceu
É chorar até a ultima lágrima
É sorrir até o ultimo sorriso
Todos nós somos poetas
Porque todos nós amamos
Uma partícula de mim está dentro de você
Eu e você no mesmo coração...
André Aquino
Monday, July 03, 2006
Não tenhas medo do amor. Pousa a tua mão
devagar sobre o peito da terra e sente respirar
no seu seio os nomes das coisas que ali estão a
crescer: o linho e genciana; as ervilhas-de-cheiro
e as campainhas azuis; a menta perfumada para
as infusões do verão e a teia de raízes de um
pequeno loureiro que se organiza como uma rede
de veias na confusão de um corpo. A vida nunca
foi só Inverno, nunca foi só bruma e desamparo.
Se bem que chova ainda, não te importes: pousa a
tua mão devagar sobre o teu peito e ouve o clamor
da tempestade que faz ruir os muros: explode no
teu coração um amor-perfeito, será doce o seu
pólen na corola de um beijo, não tenhas medo,
hão-de pedir-to quando chegar a primavera.
Friday, June 30, 2006
Desencanto
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.
Meu verso é sangue.
Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.
E nestes versos de angústia rouca,
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.
- Eu faço versos como quem morre.
Manuel Bandeira
Thursday, June 29, 2006
Tuesday, June 27, 2006
O Poeta no Café de Província
(...)
II
Um fogacho, um lampejo
vale a pena provocá-los?
vale a pena estender os lábios para um beijo
inútil, que não gera?
Vale a pena estar à espera
não se sabe de quê,
sentindo frio, frio? ...
À mesa do café
o poeta escreve versos,
versos desmesuradamente compridos,
desmesuradamente sentidos,
estilísticamente certos ou incertos,
com rima ou sem rima (tanto faz ...)
— Eh, rapaz!
Um cálice de absinto
para imitar Verlaine e os poetas malditos.
(Mas cautelosamente...
Aqui não se toleram mitos!
Há ladrões! Fechem as casas!)
E a monotonia a armar o andaime...
— Vá, asas,
élitros
de insetos, pássaros ou anjos,
esvoaçai,
palpitai,
acordai-me!
Saul Dias
Monday, June 26, 2006
Soneto do Orfeu
São demais os perigos dessa vida
Para quem tem paixão, principalmente
Quando uma lua surge de repente
E se deixa no céu, como esquecida
E se ao luar, que atua desvairado
Vem unir-se uma música qualquer
Aí então é preciso ter cuidado
Porque deve andar perto uma mulher
Uma mulher que é feita de música
Luar e sentimento, e que a vida
Não quer, de tão perfeita
Uma mulher que é como a própria lua:
Tão linda que só espalha sofrimento,
Tão cheia de pudor que vive nua.
Vinicius de Moraes
Tuesday, June 20, 2006
Há metafísica bastante em não pensar em nada
Light and Faith by Nuno MilheiroE os montes e o sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.
Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.
Alberto Caeiro
Monday, June 19, 2006
Ninguém se pode Encarar a si Próprio até ao Fundo
Ninguém pode com isto, ninguém pode encarar-se a si próprio e ver-se até ao fundo. A tua meticulosidade é de ferro, a tua meticulosidade está de tal maneira entranhada no teu ser que sem ela não existes. Pois até a tua meticulosidade se há-de dissolver! E tu sem o hábito não existes, nem tu sem o dever, nem tu sem a consciência. Sem estas palavras a vida não existe para ti, e sem escrúpulos que te resta? O que aí está é temeroso, seres estranhos, seres que, se dão mais um passo, nem eu nem tu podemos encarar com eles. Andam aqui interesses - e outra coisa. Com mil palavras diversas e ignóbeis, mil bocas que te empurram para a infâmia - outra coisa. Tens de confessá-lo. Não é a consciência - não é o remorso - não é o medo. É uma coisa inexplicável e imensa, profunda e imensa, que assiste a este espectáculo sem dizer palavra - e espera... És imundo, és a vida.
Raul Brandão, in 'Húmus'
Monday, June 12, 2006
O Palácio da Ventura
Sonho que sou um cavaleiro andante.
Por desertos, por sóis, por noite escura,
Paladino do amor, busca anelante
O palácio encantado da Ventura!
Mas já desmaio, exausto e vacilante,
Quebrada a espada já, rota a armadura...
E eis que súbito o avisto, fulgurante
Na sua pompa e aérea formusura!
Com grandes golpes bato à porta e brado:
Eu sou o Vagabundo, o Deserdado...
Abri-vos, portas douro, ante meus ais!
Abrem-se as portas douro, com fragor...
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silêncio e escuridão -- e nada mais!
Antero de Quental













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